Algumas campanhas de redes sociais geram cliques. Outras são recordadas, partilhadas e comentadas muito depois do seu lançamento. A diferença costuma não ser um orçamento maior ou uma mensagem mais ruidosa, mas sim um insight mais apurado. As melhores campanhas compreendem a cultura, detetam comportamentos da audiência precocemente e transformam esse conhecimento em ideias criativas com as quais as pessoas querem realmente interagir.
Neste artigo, analisamos algumas das melhores campanhas de redes sociais através de estudos de caso reais de marcas como Heinz, IKEA e Garnier. Desde transformar rotas do Strava em mapas para corredores movidos a ketchup, até usar a cultura digital noturna para vender um sono melhor, estes exemplos mostram o que acontece quando as marcas param de interromper as audiências e começam a encontrá-las onde elas já estão. Se procura inspiração fresca e lições práticas para aplicar na sua estratégia de conteúdo, estes estudos de caso mostram como é o grande social media marketing em ação.
1. Run on Heinz
Através de social listening, a Heinz descobriu algo estranhamente específico: os corredores de longa distância estavam a trocar os géis energéticos sintéticos caros por… saquetas de ketchup Heinz. Porquê? Porque o ketchup contém eletrólitos e açúcares simples que os corredores precisam para um boost rápido. Para estes fãs “irracionalmente obcecados”, não era apenas combustível, tinha de ser Heinz.
O problema: A seca de Ketchup
Embora os corredores adorassem as saquetas, tinham um problema: encontrá-las a meio de uma corrida de 25 km não é propriamente fácil. Não se pode simplesmente entrar numa loja qualquer e pedir uma saqueta. Assim, a Heinz precisava de uma nova forma de chegar a esses corredores.
A ideia: Hacking do mapa
A Heinz analisou a infraestrutura existente e os caminhos mais percorridos pelos corredores. Decidiram ajudar os atletas a encontrar o seu “combustível” lançando rotas em formato de garrafa Heinz diretamente nas maiores apps de corrida do mundo, como o Strava e o MapMyRun. O resultado? Criaram rotas que levavam os corredores a restaurantes que disponibilizavam Heinz.
A Heinz não tentou criar um novo comportamento, aproveitou um que já existia. Ao usar social listening para encontrar esta subcultura de nicho, a campanha pareceu autêntica em vez de forçada.
Os resultados: Uma corrida rumo ao sucesso
- 672 milhões de impressões em earned media
- Mais de 100 títulos internacionais, incluindo The New York Times, Runner’s World, Daily Mail, USA Today, Men’s Journal e ESPN
- Fãs internacionais da Heinz criaram os seus próprios mapas keystone
- 1500 corredores participaram em toda a América do Norte
- Aumento de 179% no engagement social
A lição para Social Media Managers (O Método HEINZ)
H – Hunt (Cace o nicho): Procure formas invulgares como as pessoas já usam o seu produto. É aí que vive o seu melhor conteúdo.
E – Embrace (Adote a plataforma): Não publique apenas uma imagem, use as funcionalidades únicas da plataforma (como os mapas GPS do Strava).
I – Integrated utility (Utilidade integrada): Dê algo útil e único à sua audiência. Um mapa para ketchup grátis faz sentido neste contexto; um anúncio genérico é apenas aborrecido.
N – No budget (Sem grandes orçamentos): Se a ideia for forte o suficiente, a comunidade tratará da distribuição por si.
Z – Zero friction (Zero fricção): Torne tudo fácil. A Heinz colocou os mapas exatamente onde os corredores já estavam.
2. Ikea: U up?
Todos já passámos por isso. É 1 da manhã, estamos a fazer scroll no telemóvel e recebemos aquela mensagem infame: “ainda acordado?”
Normalmente, essa mensagem vem de um ex que provavelmente devia ignorar. Mas em 2024, veio do IKEA. E em vez de uma conversa arrependida, levou à solução definitiva para uma geração que parece nunca dormir o suficiente.
O insight: A geração exausta
O IKEA percebeu que a nossa relação com o sono está degradada. Entre a “procrastinação de deitar por vingança” e o scroll noturno, os jovens adultos estão com mais privação de sono do que nunca. Não precisavam de uma palestra sobre bons hábitos de sono, precisavam de uma marca que compreendesse os seus desafios noturnos.
A estratégia: Mensagens com um toque diferente
O IKEA pegou na mensagem noturna mais famosa da cultura pop, a “u up?”, e deu-lhe um toque saudável focado no sono.
Usando segmentação contextual, o IKEA lançou anúncios que só apareciam tarde da noite, quando as pessoas tinham mais probabilidade de estar em pleno doom-scrolling. Em vez de um anúncio típico de mobiliário, o criativo apresentava um copy minimalista e astuto que falava a linguagem da internet.
A análise: Por que funcionou
- Timing perfeito: Ao correr a campanha nas horas da madrugada (23h – 03h), o IKEA encontrou a sua audiência exatamente quando sentiam a dor da insónia.
- Cultural hacking: Pegaram numa frase bem conhecida e adaptaram-na à identidade da sua marca. Foi inteligente, relacionável e instantaneamente partilhável.
- Utilidade e humor: A campanha não ficou pela piada. Direcionou os utilizadores para o Ikea com produtos e dicas concebidas para os ajudar a pousar o telemóvel e descansar.
3. Festa do pijama com streaming 24 horas da Garnier
Todos conhecemos a expressão “sono de beleza”. Mas a Garnier Filipinas levou isso à letra — e transformou-o numa máquina de faturação de 24 horas.
Num mundo onde o tempo de atenção é supostamente cada vez menor, a Garnier fez o impensável: lançou um livestream ininterrupto de 24 horas no TikTok. Sem cortes, sem magia de cinema, apenas entretenimento puro em direto.
O insight: Visando os noctívagos
A Garnier estava a lançar o seu novo Sérum de Vitamina C de Noite. O seu alvo? Millennials e Gen Z ocupados que veem a noite como o seu único momento para recarregar energias.
O desafio era provar que este sérum era o “cheat code” definitivo para acordar com a pele radiante, mesmo que não dormissem as recomendadas oito horas.
A estratégia: Deixar a audiência no controlo
Enquanto o resto do mundo dormia, uma anfitriã foi mesmo dormir em frente às câmaras após aplicar o sérum. Mas havia um detalhe: a audiência estava no controlo. Aos 1000 likes, a anfitriã recebia uma borrifadela de água. Às 5 compras efetuadas, um balão rebentava para a acordar. Foi algo gamificado, interativo e ligeiramente caótico — a receita perfeita para o TikTok.
Assim que o sol nasceu, o stream transformou-se num talk show de alta energia com celebridades e influenciadores a partilharem as suas rotinas de “get unready” e demonstrações de produtos.
A análise: Por que funcionou
O stream atraiu 3,9 vezes mais espectadores e gerou um GMV (gross merchandise value) 4,4 vezes maior do que os streams regulares em dias de pagamento. Superou largamente os objetivos da Garnier, atingindo 106% das suas vendas totais e receitas em apenas um dia. Como o fizeram?
- Livestream gamificada: Não pediram apenas que as pessoas comprassem os produtos, tornaram a compra parte do entretenimento. Ao ligar recompensas em tempo real (e partidas) a metas de vendas, transformaram o shopping num jogo divertido.
- Relevância contextual: Ao manter um stream durante a noite, alinharam o USP do produto (sérum de noite) com a hora real do dia. Foi o momento supremo de “mostrar em vez de apenas contar”.
- Escalabilidade do hype: A Garnier não confiou apenas num canal. Tiveram 23 vendedores diferentes a realizar os seus próprios livestreams em simultâneo, criando um “Garnier takeover” no feed live do TikTok.




